curta nota sobre o cinema episódico brasileiro

Introdução

Esse texto reflete um tema que me inquieta: o cinema episódico brasileiro.

Um filme episódico ou “filme de antologia” é, sumariamente, um filme que se divide em filmes menores e independentes, que em geral tem seus próprios personagens, tramas e cenários, mas que (ao menos em teoria) dialogam entre si e formam um produto final coeso: um longa-metragem episódico.

Cada episódio – como são chamados esses filmes independentes de curta duração – costuma preservar certa autonomia, dirigido por um diretor com equipe particular, podendo ser visto individualmente. Porém, se espera que o espectador assista ao filme episódico completo, com os filmes de cada diretor envolvido sendo vistos em sequência e na ordem proposta – para que o tema desenvolvido pelo filme seja plenamente compreendido.

O filme episódico e a pornochanchada

É claro que no Brasil não é assim que a banda toca.

Antes, vale fazer menção a alguns filmes episódicos brasileiros que extraordinariamente se adequam a essa proposta de transmissão temática coesa, como Cinco Vezes Favela (1962), ou Insônia (1982). É evidente, porém, que essa coesão – ou a busca por ela –  veio através de organizações políticas que participaram das filmagens, o CPC (Centro Popular de Cultura) no primeiro caso, e a Cooperativa Mista Brasileira de Atores e Técnicos (simbolicamente, COMBATE) no segundo.

Na prática, o filme episódico foi abraçado pela pornochanchada. O que formou, na opinião desse singelo autor, um dos ecossistemas cinematográficos mais curiosos que já se viu. Vale lembrar que a pornochanchada se consolidou enquanto “gênero” a partir da influência de filmes episódicos italianos.

É através do cinema erótico popular de estrutura episódica que surgem filmes interessantíssimos. Isso não quer dizer que sejam bons filmes, coisa, aliás, que parece exceção no cinema episódico brasileiro. Porém, é difícil não se intrigar com As Cariocas (1966), filme que intercala três diretores de estilos distintos em três gêneros diferentes – Fernando de Barros faz uma comédia romântica, Walter Hugo Khouri faz um drama, e Roberto Santos faz um pseudo-documentário – todos adaptando três contos de Sérgio Porto.

É importante ter em mente que esses filmes não necessariamente contemplavam o desejo artístico dos envolvidos – antes pelo contrário –  mas resolviam uma necessidade essencial e incontornável: pagar as contas fazendo cinema. Como disse o roteirista Leopoldo Serran: “Pra sobreviver na profissão é preciso fazer o que eu faço e não sinto vergonha disso”

Fazer um filme erótico de curta-duração era quase uma carta coringa no Brasil na década de 1970, por seu caráter intercambiável. É como conta John Herbert, que dirigiu o episódio Cartão de Crédito a convite de Luís Sérgio Person, que queria fazer um filme episódico chamado Os Sete Pecados Capitalistas. O longa-metragem contaria com sete diretores de São Paulo, cada um dirigindo um episódio. O projeto não foi pra frente, e abro aspas para o próprio John Herbert:

“O caso é que o meu filme [Cartão de crédito] estava terminado, com produção minha, meu dinheiro. Eu não queria perder aquele trabalho. Então tive um contato com o Aníbal Massaini [importante produtor], que estava produzindo um filme de episódios. Ele já tinha dois prontos, um do Adriano Stuart, outro do Sílvio de Abreu. Faltava um terceiro”. Então, Cartão de Crédito acabou entrando para Cada um dá o que tem (1975), filme diferente do inicialmente proposto, tendo que fazer apenas algumas filmagens a mais.

Vale fazer alguns apontamentos finais. O primeiro é notar a centralidade dos produtores na realização desses filmes episódicos, que em geral contratavam diretores para filmarem, coisa que os profissionais faziam justamente como diz a palavra: profissionalmente, isto é, estabelecendo o diretor mais como um técnico de cinema que como a grande mente criadora por trás do filme. O fator “diretor contratado” é relevante porque coloca em questão, inclusive, os diálogos, conciliações, imposições de limites e criação de pontes entre o diretor e o produtor, que é o dono do investimento e que por isso visa o lucro, como é óbvio, enquanto o diretor é que assinaria o filme “artisticamente”.

O segundo e último apontamento visa notificar o óbvio: não explorei a totalidade de expressões dos filmes episódicos brasileiros nesse curto texto. Existem alguns filmes episódicos dirigidos por um único cineasta, como Adultério à Brasileira (1969), com três episódios dirigidos por Pedro Carlos Rovai; ou Gente Fina É Outra Coisa (1977), totalmente dirigido por Antônio Calmon, com a particularidade de ter o mesmo personagem como protagonista nos três episódios. E é claro que nem só de pornochanchada viveu o cinema episódico – temos, por exemplo, Trilogia de Terror (1968), de José Mojica Marins, Ozualdo Candeias e Luís Sérgio Person.

Também parece importante detectar o papel decisivo do filme episódico na gradual transição da pornochanchada para o cinema efetivamente pornográfico no começo da década de 1980. O erótico dá lugar ao explícito, e essa linha começa a ser nuançada a partir do episódico.

Um profissional que participa desse momento é John Doo, que curiosamente é mais conhecido por sua participação como diretor em filmes episódicos que dialogam cada vez mais com a pornografia (A noite das Taras, 1980; Pornô, 1981; e Aqui, Tarados, 1981) do que por seu trabalho como diretor solo, digamos assim. Dentro da limitação do que vos escreve, desconheço outro cineasta que tenha essa característica.

Esse texto se satisfaz em trazer algumas notas sobre um tema que vem mobilizando a curiosidade de seu ator, sem pretender encerrar a complexidade dos assuntos. 

Sem conclusão – quem sabe no próximo episódio

O cinema episódico foi um dos mais interessantes escapes à censura e ao sucateamento, um atalho não só para a expressão cinematográfica, mas uma forma de manter toda uma equipe empregada e vivendo de cinema em terras de produto estrangeiro.

Sem moralismo ou apego a idealismos, são filmes brasileiros. Nosso recurso indecente que dilata a produção a moldes próprios. Cinema feito. Não só a primeira verdadeira indústria cinematográfica brasileira, mas o verdadeiro “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” – talvez “um aluguel pra pagar e uma vontade insaciável de fazer cinema”.

Enrico Mancini