o animismo de wolfram, a saliva do lobo

Wolfram não é mais um filme de aparência DIY feito com fins de recobrar a esperança na possibilidade de se fazer um cinema ‘’amador’’ que deve se contentar com uma mera existência apologista. O filme, realizado por uma equipe enxuta de dois cineastas, não é nada menos que um monumento de dimensão sublime que restitui de alguma forma o senso do épico e o espírito romântico¹, tendo permanecido soterrado indevidamente e muito pouco apreciado ao longo dos anos.

Enredando-se pela região das Minas da Panasqueira em Portugal, a dupla de cineastas registra o processo (palavra fundamental quando tratamos deste filme) de extração de minérios como se estivesse filmando os passos derradeiros de uma distopia pós- humana, onde as máquinas, os minérios e as catacumbas úmidas e escuras foram tudo o que restou. A figura humana nessa realidade (e nesse filme) não passa de mero detalhe, sempre destituída de qualquer semblante. Mesmo que os corpos estejam aí, não são mais que cascas ocas exercendo funções roboticamente (o pessimismo existencial do filme começa por aí). Pimenta e Torgal compreendem acertadamente que é justamente ao se omitir deliberadamente um elemento que este se torna o mais presente de todos.

As atenções da lente, uma vez que se deslocam do ser humano, voltam-se com obsessão antropomórfica às diferentes texturas e formas orgânicas presentes nas minas, lembrando a tendência humana de se enxergar em todas as coisas e de moldá-las à sua imagem e semelhança. Esses entes passam, então, a serem registrados com paixão, meticulosidade e pulsão erótica, não faltando planos que poderiam figurar entre os mais impressionantes da história do cinema. À jornada da matéria-prima das minas é garantido ritmo intoxicante pelo processo de montagem e pelo trabalho inigualável de captação sonora visto aqui.

Ainda sobre a inclinação distópica da obra, embora tanto os minutos inicias como os finais sejam paisagens em estonteantes planos gerais do mundo externo que cerca a mina, passaremos a maior parte do tempo no subsolo, escavando e maculando as entranhas desse lugar. A figura humana, reduzida a reproduzir mecanicamente etapas de um processo de exploração, a onipotência e preenchimento do quadro por máquinas demiúrgicas e a consecutividade procedural da espoliação de recursos naturais compõe uma topografia desarmoniosa e pessimista. O mundo exterior que sobrou é ausente de humanidade e povoado por montanhas de escória, rios contaminados e barragens de lama danificadas. Em um determinado momento assistimos lentamente o despejo de minérios manchar a paisagem de maneira explícita. Se muitos planos apontam para um erotismo é porque o filme observa mordazmente que o ímpeto autodestrutivo da humanidade caminha em direção à sua própria extinção.

Seria impossível não notar como o assunto do filme atua, também, como um duplo que põe em evidência sua própria manufatura. É pela navegação subterrânea de onde essa matéria bruta indefinida é extraída (poderíamos colocar nessas mesmas palavras tanto a extração dos minérios como a extração das imagens pró-fílmicas) que Torgal e Pimenta, tal qual os mineradores, adentram no coração dessa ferida aberta na colina para buscar a matéria bruta e incerta de onde algo maior será extraído e, posteriormente, pensado e organizado meticulosamente. Se em Um Homem com uma Câmera (1929) Vertov nos mostra sem ressalvas a fatura de seu filme registrando nele próprio seu processo de montagem, em Wolfram isso se dá de maneira menos explícita, mas não menos verdadeira. Mãos humanas cuidadosamente separam e embalam o produto extraído das criptas, mãos e cérebros humanos cuidadosamente montaram o longa que assistimos.

Se no minuto final as árvores farfalham sob a ação do vento ao som de um hino para os mineradores, é porque em Wolfram os objetos são as pessoas. As árvores são os mineradores, a Panasqueira é a humanidade. Há uma cosmovisão panteísta que une os habitantes daquele local às forças da natureza que choram. Como a floresta e o vilarejo atingidos pela prática da mineração, Wolfram subsiste em meio às forças homogeneizantes que buscam extinguir as expressões individuais e regionais dos cinemas ao redor do mundo e mostra que, para extrair algo de grandioso, é necessário escavarmos até o cerne de cada questão, sempre atentos às suas particularidades.

Luiz Honorio


[1] P. Adams Sitney comenta sobre a aspiração romântica do cinema de vanguarda em seu texto ”A ideia de morfologia”.