Resta à crítica, quando deparada com obras já celebradas e amplamente estudadas pelas mais diversas óticas, a missão de indicar pontos de vista esquecidos e reintroduzir ao debate características que acabaram por não serem suficientemente exaltadas e percebidas. Ultrapassado pela opinião, o crítico retardatário possui ao seu lado a charmosa vantagem de estar só entre as últimas posições, a ele resta o dever de olhar para trás reavaliando o que foi feito e traçar novos caminhos tendo passadas as mais inflamadas recepções imediatistas.
Dando sequência ao parágrafo acima, baseado parcialmente em comentários do poeta e crítico de arte Charles Baudelaire ao se debruçar sobre Madame Bovary, a revista pretende contribuir com uma tradição de publicações e pensadores da arte que, de forma independente, lançam-se contra uma lógica algorítmica de produção que precariza o espaço do pensamento em virtude do imediatismo de respostas fáceis em redes sociais, além dos vícios que regem a práxis dominante da atualidade e de críticos, curadores e programadores cada vez mais indiferentes e desinteressados. Entendemos que esse trabalho deve ser realizado de maneira distanciada dos academicismos e das cabines de imprensa que, predatoriamente, castram a honestidade crítica. Sendo assim esperamos oferecer um panorama alternativo que esboce o que a crítica pode ser, mantendo sempre diálogo com comunidade cinéfilas e artísticas de entusiastas, críticos e realizadores. Pretendemos recolocar em questão trabalhos que foram deixados para trás e tentar, por meio deles, constituir um desenho mais preciso sobre a singularidade da nossa época e da contemporaneidade, que possui, para nós, como força motriz principal o bom anacronismo: Aquele que não coincide em absoluto com todos os aspectos de seu tempo e se distancia dele de maneira cética, entendendo que fazer uma revolução também significa resgatar valores tão antigos que já foram esquecidos.
Nossa publicação visa constituir um órgão de pesquisa vivo onde cada artigo exprima a opinião e os caminhos investigados pelo seu autor de maneira autônoma. Simultaneamente, esperamos que cada um desses textos constitua a longo prazo um corpo coerente de ideias quando vistos em linhas gerais e que apontem para uma história do Cinema fora dos shopping centers e do streaming. Para isso, nos voltaremos principalmente ao Cinema, sem dispensar eventuais escritos sobre outras formas de expressão artística, como a pintura e a literatura. Além de contar com textos inéditos, também veicularemos traduções e compilações de materiais estrangeiros pouco acessíveis em português, assim como a reapresentação de produções de nosso próprio país, já que muitas vezes essas acabam como estrangeiras ao nosso próprio povo.
Os principais objetos de interesse são o cinema experimental, o filme de baixo orçamento e cineastas de filmografia ofuscada (seja pela nacionalidade, período de atuação, gênero ou motivações políticas). Voltamos nosso olhar sobretudo para processos de criação artística que dispensem a profusão monetária e escassez de inventividade vistas, por exemplo, na inchada e empobrecida máquina hollywoodiana contemporânea. Como mencionado anteriormente, não significa que deixaremos de falar sobre grandes obras do passado já estabelecidas, a respeito dessas tentaremos sempre tecer perspectivas e associações revigorantes.
O nome de nossa revista faz alusão à maneira como o Cinema, arte e indústria da era capitalista, ocupa lugar de semelhante importância ao que o teatro fazia na pólis grega, restabelecendo aspectos de coletividade entre os indivíduos e fomentando a troca de opiniões dentro de comunidades que engajem ativamente com a arte (a cinefilia como rito coletivo ao mesmo tempo que experiência intimista). Nesse sentido, esperamos remeter em algum sentido à Pólis Grega, figurando como um espaço de troca de ideias e experiências com o Cinema e demais Artes.
Luiz Honorio